segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Vincent Cheung - Caridade, um evangelho social


 
Existe um contexto, um pano de fundo, por detrás de todas as obras de caridade que a igreja realiza, e esse pano de fundo é a fé em Jesus Cristo. É um erro grave – um erro danoso – supor que o Cristianismo é primariamente um sistema de ética, ou que ele é principalmente um chamado para a justiça social e as obras de caridade. Interpretar o Evangelho de Jesus Cristo como puramente, ou até mesmo principalmente, um evangelho social é distorcer a sua mensagem e negar o seu poder. Boas obras não produzem uma religião pura, mas esta produz as boas obras. Esta distinção deve ser mantida.

Algumas pessoas estão aparentemente tão ávidas para alcançar certos tipos de pessoas que elas se transformariam tanto para se adaptar àquelas, que no final dificilmente restaria alguma diferença considerável entre elas e as pessoas que estão tentando alcançar. Se elas são tão parecidas com aquelas pessoas, então porque aquelas precisam se converter? Se elas chegam até aquelas pessoas e usam o mesmo palavreado de baixo calão, vestem o mesmo tipo de roupas, fazem o mesmo tipo de piadas sujas, cantam e ouvem o mesmo tipo de músicas mundanas, e fazem muito de tudo o que os incrédulos fazem, então essas pessoas já foram poluídas.

Tiago diz que a religião pura e imaculada não apenas cuida dos órfãos e viúvas, mas também se mantém guarda alguém de ser poluído pelo mundo. Isso reforça a idéia de que o Cristianismo não é um evangelho social. A filosofia bíblica do ministério e do evangelismo é remover qualquer abertura desnecessária sem ir a extremos ridículos ao fazê-lo. “O que é ridículo?”, você diz. Um exemplo atual é parafrasear todo o Novo Testamento na “linguagem das ruas”. Quando um crente vai para as “ruas” com isto, logo de início ele causa a impressão de que Deus não se importa com a pureza de suas palavras, ou pelo menos que ele não se importa com isto.

Novamente, a filosofia bíblica de ministério é remover qualquer obstáculo desnecessário, mas a filosofia desorientada sobre a qual estamos falando agora crê que a forma de alcançar o mundo é mostrar aos incrédulos que, no final das contas, não somos tão diferentes deles. Olhando da perspectiva da eficácia no ministério, da fidelidade à palavra de Deus, e da perspectiva de manter uma religião pura e imaculada, se esta é a nossa filosofia de ministério, então poderíamos também deixar os órfãos e as viúvas morrerem de fome.

O que eu estou dizendo é que nós não podemos deixar que as preocupações sociais dirijam nossa fé e prática, e não podemos deixar que nossa mensagem se torne meramente um evangelho social; de outra forma, todo o nosso empreendimento se tornará sem poder e sem significado. Nosso trabalho se tornará um que salva o estômago, mas que deixa a alma morrer de fome. De fato, se a igreja se torna uma mera instituição social, uma organização para promover obra de caridade e bem-estar do homem natural, então ela perde sua própria razão de existência.

Ora, o mundo daria boas-vindas à semelhante instituição, e amaria nada mais do que uma igreja humanística e sem poder, ao invés de ouvi-la pregar uma mensagem do céu que também tem implicações éticas e sociais. Assim, nossa obra social e de caridade deve ser dirigida por preocupações espirituais e princípios bíblicos. Ela deve ser fruto da verdadeira fé e da religião pura, e não o objeto último, a natureza ou o propósito da nossa fé.
 
Extraído do livro "Religião Pura" da Ed. Monergismo