terça-feira, 1 de novembro de 2011

Loraine Boettner - A fé reformada: A soberania de Deus



O objetivo desta série de artigos é estabelecer, em linguagem simples e em termos acessíveis, as diferenças básicas entre os sistemas Calvinista e Arminiano de teologia, e mostrar o que a Bíblia ensina sobre estes assuntos. A harmonia que existe entre as várias doutrinas da fé cristã é tal que o erro em relação a qualquer uma delas produz uma maior ou menor distorção em todas as outras.

Existem, na realidade, apenas dois tipos de pensamento religioso. Existe a religião da fé, e existe a religião das obras. Acreditamos que o que é conhecido na História da Igreja como Calvinismo é a mais pura e consistente personificação da religião da fé, enquanto o que tem sido conhecido como Arminianismo foi diluído para um grau perigoso pela religião das obras e que é, portanto, uma forma incoerente e instável do cristianismo. Em outras palavras, cremos que o cristianismo alcança a sua expressão mais pura e plena na fé reformada.

No início do quinto século estes dois tipos de pensamento religioso entraram em conflito direto em um contraste notavelmente claro tal como consagrado nos dois teólogos do quinto século, Agostinho e Pelágio. Agostinho apontou os homens a Deus como fonte de toda a sabedoria espiritual e força, enquanto Pelágio jogou homens de volta sobre si mesmos dizendo que eles eram aptos, em suas próprias forças, a fazer tudo o que Deus ordenou, caso contrário, Deus não os teria ordenado. Cremos que o Arminianismo representa um ajuste entre estes dois sistemas, mas que, enquanto em sua forma mais evangélica, como no Wesleyanismo primitivo, ele se aproxima da religião de fé, contendo, entretanto, graves elementos de engano.

Estamos vivendo em uma época na qual praticamente todas as igrejas históricas estão sendo atacados, por dentro, pela incredulidade. Muitas delas já sucumbiram. E quase sempre a linha de descida tem sido do Calvinismo para o Arminianismo e do Arminianismo para o Liberalismo, e depois para Unitarismo. E a história do Liberalismo e do Unitarismo mostra que eles se deterioram para um evangelho social, que é fraco demais para se sustentar. Estamos convencidos de que o futuro do cristianismo está ligado a esse sistema de teologia historicamente chamado de "Calvinismo". Onde os princípios centrados em Deus do calvinismo foram abandonados, houve uma forte tendência decrescente para as profundezas do naturalismo ou secularismo centrados no homem. Alguns têm declarado - e cremos que corretamente - que não há um ponto de parada estável entre o Calvinismo e Ateísmo.

O princípio básico do Calvinismo é a soberania de Deus. Isto representa o propósito do Deus Triuno como absoluto e incondicional, independente de toda a criação finita, e originado exclusivamente no eterno conselho de Sua vontade. Ele determina o curso da natureza e dirige o curso da história até os seus mínimos detalhes. Seus decretos são, portanto, eternos, imutáveis, santos, sábios e soberanos. Eles são representados na Bíblia como sendo a base da presciência divina de todos os eventos futuros, e não condicionados por esse conhecimento prévio ou por qualquer coisa originada dos próprios eventos. 

Toda pessoa que reflete, rapidamente percebe que há alguma soberania regendo a vida. Ela não foi questionada se iria ou não existir, quando, como ou onde nasceria, se no século XX ou antes do Dilúvio, se homem ou mulher, se branca ou negra, se nos Estados Unidos, na China , ou na África. Todas essas coisas foram soberanamente decididas para ela antes de qualquer existência sua. É reconhecido por cristãos de todas as eras que Deus é o Criador e Regente do mundo, e que, como tal, Ele é a fonte última de todo o poder que há em todo o mundo. Por isso nada pode acontecer além da sua vontade soberana. Caso contrário, Ele não seria verdadeiramente Deus. E quando nos debruçamos sobre essa verdade, percebemos que ela envolve considerações que estabelecem o Calvinismo e refutam a posição Arminiana.

Em virtude do fato de que Deus criou tudo que existe, Ele é o dono absoluto e árbitro final de tudo o que Ele fez. Ele não apenas exerce uma influência geral, mas na verdade regula os assuntos dos homens (Atos 4:24-28). Mesmo as nações são como o pó quando comparadas à sua grandeza (Isaías 40:12-17). Em meio a todas as aparentes derrotas e inconsistências de nossa vida humana, Deus está realmente controlando tudo em serena majestade. Mesmo os atos pecaminosos dos homens só podem ocorrer por Sua permissão e com o poder que Ele dá à criatura. E uma vez que Ele não os permite a contragosto, mas voluntariamente, então tudo o que acontece - incluindo até mesmo os atos pecaminosos e o destino final dos homens – tem que ser, em certo sentido, de acordo com o que Ele eternamente propôs e decretou. Na mesma proporção em que isto é negado, Deus é excluído do governo do mundo, e temos apenas um Deus finito. Naturalmente, surgem alguns problemas que em nosso estado atual de conhecimento não somos plenamente capazes de explicar. Mas isso não é razão suficiente para rejeitar o que as Escrituras e os claros preceitos da razão afirmam ser verdadeiro.

E não deveríamos crer que Deus pode converter um pecador quando lhe apraz? Não é possível ao poderoso, o onipotente soberano do céu e da terra mudar o caráter das criaturas que Ele fez? Ele transformou a água em vinho em Caná e converteu Saulo no caminho de Damasco. O leproso disse: "Senhor, se quiseres, podes purificar-me" (Mt 8:2). E em uma palavra sua lepra foi curada. Não vamos acreditar, como fazem os arminianos, que Deus não pode controlar a vontade humana, ou que Ele não pode regenerar uma alma, quando lhe agrada. Ele é capaz de limpar tanto a alma quanto o corpo. Se Ele o quisesse poderia levantar uma multidão de ministros cristãos, missionários e trabalhadores de vários tipos, e poderia, assim, trabalhar através do Seu Santo Espírito para que o mundo inteiro se convertesse em um curtíssimo tempo. Se Ele propusesse salvar todos os homens, Ele poderia ter enviado hostes de anjos para instruí-los e realizar obras sobrenaturais na terra. Ele poderia ter trabalhado maravilhosamente no coração de cada pessoa de modo que ninguém se perdesse.

Visto que o mal existe somente por Sua permissão, Ele poderia, se lhe aprouvesse, apagá-lo da existência. Seu poder foi mostrado, a este respeito, por exemplo, na obra do anjo destruidor que em uma noite matou todos os primogênitos dos egípcios (Êxodo 12:29), e em outra noite matou 185.000 dos exércitos assírios (II Reis 19:35). Isto foi demonstrado quando a terra se abriu e engoliu Coré e seus aliados rebeldes (Nu. 16.31-35). O Rei Herodes foi ferido e morreu de uma morte horrível (Atos 12:23). Em Daniel 4:34-35, lemos que o poder do Deus Altíssimo "é um domínio eterno, e cujo reino é de geração em geração, e todos os moradores da terra são por ele reputados em nada; e, segundo a sua vontade, ele opera com o exército do céu e os moradores da terra; não há quem lhe possa deter a mão, nem lhe dizer: O que fazes?”

Tudo isso traz à tona o princípio básico da Fé Reformada - a soberania de Deus. Deus criou este mundo em que nos encontramos, ele o possui, e ele o dirige segundo a Sua a sua boa e soberana vontade. Deus não perdeu em nada o seu poder, e é altamente desonroso a Ele supor que Ele está lutando junto com a raça humana, dando o melhor de si para persuadir os homens a fazer o que é certo, mas incapaz de realizar seu eterno, imutável, santo, sábio e soberano propósito.

Qualquer sistema que ensina que as sérias intenções de Deus podem, em alguns casos, serem derrotadas, e que o homem, que não é apenas uma criatura, mas uma criatura pecadora, pode exercer o poder de veto sobre os planos de Deus Todo-Poderoso, está em flagrante contraste com a idéia bíblica de sua imensurável exaltação, através da qual Ele é desconectado de todas as fraquezas da humanidade. Os planos dos homens nem sempre são executados devido à falta de poder, à falta de sabedoria, ou a ambas. Mas uma vez que Deus é ilimitado nestes e em todos os outros recursos, nenhuma situação imprevisível pode surgir. Para ele, as causas de mudança não existem. Supor que o seu plano falha e que ele se esforça por um efeito nulo é reduzi-lo ao nível das suas criaturas e fazer dele um não-Deus em absoluto.