quinta-feira, 8 de março de 2012

Lee Strobel - O teste do acobertamento



Quando as pessoas testificam sobre eventos que presenciaram, sempre tentam proteger a si mesmas e aos outros, esquecendo-se muito convenientemente de mencionar detalhes embaraçosos ou difíceis de explicar. Conseqüentemente, isso suscita dúvidas sobre a veracidade de todo o seu testemunho. Perguntei então a Blomberg:

— Os autores dos evangelhos registraram algum tipo de material que poderia ser fonte de embaraço ou o acobertaram para que parecesse decente? Será que inseriram em seu relato alguma coisa incômoda ou de difícil explicação?

— Há de fato muito o que dizer a esse respeito — ele respondeu. — Grande parte dos ensinamentos de Jesus consiste em palavras duras. Alguns ensinamentos exigem muito no plano ético. Se eu tivesse de inventar uma religião para satisfazer minha fantasia, provavelmente não cobraria de mim mesmo perfeição igual à do meu Pai celestial, tampouco diria que a lascívia que sinto no coração já é, por si mesma, adultério.

— Porém — objetei —, outras religiões também fazem exigências muito duras.

— Sim, é verdade, por isso mesmo as exigências mais duras eram as que colocavam as maiores dificuldades para o que a igreja se propunha a ensinar sobre Jesus. Achei vaga a resposta.

— Dê-me alguns exemplos, por favor — pedi. Depois de pensar um pouco, ele disse:

— Por exemplo, em Marcos 6.5, lemos que Jesus não pôde fazer muitos milagres em Nazaré porque as pessoas dali eram incrédulas, o que parecia limitar seu poder. Jesus disse em Marcos 13.32 que não sabia a hora de seu retorno, o que parece limitar sua onisciência. Atualmente, essas declarações não são mais problema para a teologia, porque Paulo, em Filipenses 2.5-8, nos diz que Deus, em Cristo, quis, de maneira espontânea e consciente, limitar o exercício independente de seus atributos divinos. Mas, se pudesse passar pela história dos evangelhos sem lhe dar muita atenção, seria muito mais conveniente deixar de fora todo esse material, o que me pouparia o trabalho de ter de explicá-lo. O batismo de Jesus é outro exemplo. Existe uma explicação para que Jesus, que não tinha pecados, se deixasse batizar, mas por que não facilitar as coisas e deixar esse episódio de fora? Na cruz, Jesus gritou: "Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste?". Teria sido muito melhor para os evangelistas omitir essa passagem, já que ela dá margem a tantas perguntas.

— Também há muito material constrangedor sobre os discípulos — acrescentei.

— Sem dúvida — disse Blomberg. — Sempre que Marcos fala de Pedro, o tom é bem pouco elogioso. E olhe que Pedro era o líder! Os discípulos quase sempre entendiam mal o que Jesus queria dizer. Tiago e João queriam os lugares à direita e à esquerda de Jesus, por isso Cristo lhes deu lições muito duras para mostrar-lhes que o líder é quem deve servir primeiro. Eles se comportavam como um bando de egoístas, interesseiros e tolos na maior parte das vezes.

— Já sabemos que os evangelistas eram seletivos; o evangelho de João termina dizendo, um tanto quanto hiperbolicamente, que o mundo inteiro não seria capaz de conter tudo o que se poderia escrever sobre Jesus. Portanto, se tivessem deixado de fora passagens desse tipo, isso não significaria necessariamente que estivessem falsificando a história. Mas a questão é a seguinte: se os evangelistas não se sentiam à vontade para deixar de fora esse tipo de material, quando na verdade teria sido conveniente e útil que o fizessem, será de fato plausível acreditar que tenham acrescentado e produzido material sem nenhuma base histórica?

Blomberg deixou por alguns momentos a pergunta no ar antes de respondê-la, convicto:

— Eu diria que não.

Fonte: Texto extraído do livro “Em defesa de Cristo” da Editora Vida