segunda-feira, 14 de maio de 2012

Dr. Sam Storms - Hebreus 6:4-6 e a Possibilidade de Apostasia

Esta é indubitavelmente uma das mais controversas e freqüentemente debatidas passagens em toda a Escritura. Não seria errado dizer que aqueles que crêem que um crente genuíno pode perder sua salvação apelam a esta passagem com mais freqüência que qualquer outra. Leia a passagem atentamente.

Porque é impossível que os que já uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se tornaram participantes do Espírito Santo, e provaram a boa palavra de Deus, e as virtudes do século futuro, e recaíram, sejam outra vez renovados para arrependimento; pois assim, quanto a eles, de novo crucificam o Filho de Deus, e o expõem ao vitupério.

Quem são aquelas pessoas que uma vez foram iluminadas, provaram do dom celestial, se tornaram participantes do Espírito Santo, provaram da boa Palavra de Deus e dos poderes do século futuro, e então recaíram? É importante que saibamos, pois é impossível renová-las outra vez para o arrependimento, uma vez que elas novamente crucificaram o Filho de Deus e o expuseram ao vitupério.

Existem provavelmente mais de doze opções interpretativas a essa passagem, que podem ser encontradas em comentários ou periódicos. Não é meu propósito interagir com eles. Pelo contrário, estou focando somente na questão de se a terminologia nos versos 4 e 5 nos levaria a concluir que estes indivíduos são nascidos de novo, justificados, crentes.

Estas pessoas são homens e mulheres cristãos nascidos de novo? Se forem, destrói-se a doutrina da segurança eterna. Ou é possível para alguém experimentar alguma forma de iluminação espiritual, provar bênçãos espirituais, partilhar do Espírito Santo e ainda assim nunca ter conhecido Jesus de um modo salvífico? Creio que a resposta para esta última questão é Sim. Deixe-me começar dando seis razões do próprio livro de Hebreus para mostrar que as pessoas que apostataram não são nascidas de novo.

Primeiramente, a situação descrita nos versos 4-6 é ilustrada nos versos 7-8. Lá nós lemos, “Porque a terra que embebe a chuva, que muitas vezes cai sobre ela [este beber chuvas freqüentes refere-se às bênçãos dos versos 4-5: iluminação, participar do Espírito, provar bênçãos espirituais, etc.], e produz erva proveitosa para aqueles por quem é lavrada, recebe a bênção de Deus; mas a que produz espinhos e abrolhos [isto corresponde à queda do v.6a], é reprovada, e perto está da maldição; o seu fim é ser queimada.

A chuva cai em todos os tipos de solo, mas não se pode dizer, apenas com base nisso, que tipo de vegetação, se haverá alguma, aparecerá. A figura aqui não é de um solo que recebe chuva freqüente, dá vida e vegetação, e então a perde. A figura é sobre dois tipos de solo juntos. Um responde à chuva [bênçãos e oportunidades espirituais] por produzir vegetação abundante, enquanto o outro é estéril, sem vida e, assim condenado. Da mesma forma, pessoas que ouvem o evangelho e respondem com fé salvífica manifestam vida. Outras, entretanto, que sentam na igreja, ouvem a verdade e são abençoadas pelo ministério do Espírito Santo mas que eventualmente viram suas costas a tudo isso, são como um campo em que nunca floresce vegetação e assim vão a julgamento.

Como Wayne Grudem nota,
A idéia de terra que uma vez deu bons frutos e agora traz espinhos não é compatível com esta figura. A implicação é esta: enquanto as experiências positivas listadas nos versos 4-6 não nos dão informação suficiente para saber se as pessoas são verdadeiramente salvas ou não, a atitude de apostasia e expor Cristo à vergonha revelam a verdadeira natureza daqueles que caíram: todos eles são como um solo ruim que pode dar apenas frutos maus. Se a metáfora da terra de espinhos explica os versos 4-6 (como certamente o faz), então sua queda mostra que primeiramente eles nunca foram salvos (Perseverance of the Saints: A Case Study from Hebrews 6:4-6 and the Other Warning Passages in Hebrews, in Still Sovereign, Baker; 156-57).
Segundo: em 6.9 lemos um contraste significante: Mas de vós, ó amados, esperamos coisas melhores, e coisas que acompanham a salvação, ainda que assim falamos. As coisas melhores em vista são listadas em 10-12, coisas como trabalho, amor, serviço, diligência, completa certeza da salvação e fé, paciência, herança das promessas. Estas coisas são melhores que as experiências dos versos 4-6 precisamente porque elas pertencem à ou são acompanham a salvação . Em outras palavras, o autor diz que está confiante de que muitos de seus leitores têm coisas melhores que as pessoas descritas nos versos 4-6, e estas coisas são melhores, pois seus leitores têm coisas que pertencem à salvação. Isto implica que as bênçãos nos versos 4-6 não são coisas que pertencem à salvação (Grudem, 159).

Antes de seguir adiante, vamos resumir os versos 7-12. Os versos 7-8 descrevem as pessoas nos versos 4-6 como terra infrutífera que repetidamente produz espinhos e abrolhos, e, portanto indica que elas nunca foram salvas. Versos 9-12 dizem que os leitores, em geral, têm coisas melhores que as experiências temporárias dos versos 4-6, e que estas coisas melhores incluem a salvação. Portanto, tanto os versos 7-8 como verso 9 indicam que as pessoas nos versos 4-6, que caíram, nunca tiveram salvação (Grudem, 160).

Terceiro, de acordo com Hebreus 3.14 (e 3.6), nós nos tornamos participantes de Cristo, se retivermos firmemente o princípio da nossa confiança até ao fim. Note bem: ele diz que nós nos tornamos participantes de Cristo, não que nos tornaremos ou somos agora participantes, se perseverarmos na fé. Em outras palavras, se reter firmemente a fé, i.e., perseverar, isto prova que você se tornou parceiro de Cristo no passado. Falhar em sustentar a fé, u.e., apostatar da fé, prova que você nunca foi um participante de Cristo. Apostasia ou cair (6.6a) não significa que uma vez você estava, mas agora caiu da participação em Cristo. Significa que você nunca foi ou nunca se tornou um participante.

Fonte: Leia o texto integral em Monergismo