segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

G. I. Williamson - Dias santos de homens e dias santos de Deus



(Reproduzido pela Blue Banner Faith and Life, Julho-Setembro de 1962)

No Evangelho de Lucas, lemos estas palavras: “aquilo que é elevado entre os homens é abominação diante de Deus”. São palavras de Jesus Cristo, o Filho de Deus. E, por favor, note sua força: o que é colocado pelos homens na categoria mais alta é colocado por Deus na categoria mais baixa possível.

E quais são estas coisas que os homens estimam de forma tão alta, mas que Deus abomina de forma absoluta? São as coisas da religião. É sobre isso que Jesus estava falando. Aos Fariseus Ele disse: “Vós sois os que vos justificais a vós mesmos diante dos homens, mas Deus conhece o vosso coração; pois aquilo que é elevado entre os homens é abominação diante de Deus”. Foram exatamente as coisas que eles fizeram na esfera da religião, coisas muito estimadas e que os fazia parecer “justos” diante dos homens, que os tornava abomináveis a Deus.

Quando Jesus adicionou esse comentário, seu significado se tornou ainda mais claro: “E é mais fácil passar o céu e a terra do que cair um til sequer da Lei”. O problema é que eles não davam ouvidos à Lei de Deus. Como Jesus disse, “Negligenciando o mandamento de Deus, guardais a tradição dos homens... Jeitosamente rejeitais o preceito de Deus para guardardes a vossa própria tradição... invalidando a palavra de Deus pela vossa própria tradição”. Não é de admirar que o veredicto tenha sido: “E em vão (inutilmente) me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens”.

Outras tradições dos homens
É fácil para nós ver o erro dos fariseus. Eles acrescentaram à Palavra de Deus muitas tradições humanamente concebidas. Gradualmente, à medida que o tempo passou, tais tradições se tornaram tão estimadas entre eles que foram colocadas lado a lado com os mandamentos de Deus. E no tempo de Jesus, tais tradições eram mais importantes para eles do que os mandamentos de Deus (na prática, se não na teoria). Assim a Palavra de Deus foi tornada sem nenhum efeito por suas tradições. Sim; e o ponto especial que deve ser observado é que essas tradições – honradas e sagradas aos olhos dos Fariseus – eram abominação aos olhos de Deus. Jesus disse que eles adoravam a Deus em vão. Isto é, eles poderiam muito bem ter tido qualquer coisa sem culto religioso por tudo o que fizeram. Era algo completamente inútil.

Quando recordamos os muitos exemplos na história bíblica, quando esse mesmo mal ocorreu, vamos entender melhor a severidade de Jesus. A Bíblia não nos diz que, desde o início, era assim?“Ao passo que de Caim e de sua oferta não se agradou” (Gênesis 4.5). A adoração que Caim concebeu para si mesmo era uma abominação para Deus, mas altamente estimada por ele. E lembramos os filhos de Arão, Nadabe e Abiú, que tomaram fogo e incenso e ofereceram diante do Senhor, “o que lhes não ordenara. Então, saiu fogo de diante do SENHOR e os consumiu; e morreram perante o SENHOR” (Levítico 10.1,2). Obviamente, o que era muito estimado, era abominação aos olhos de Deus.

Através de muitos outros exemplos, podemos lembrar a pergunta de Zacarias, o profeta, por aqueles que retornaram do cativeiro. Eles perguntaram sobre certa tradição que tinha “surgido” durante os dias do cativeiro, e perguntaram se deveriam ou não continuar. O profeta disse: “Quando jejuastes e pranteastes, no quinto e no sétimo mês, durante estes setenta anos, foi para mim que jejuastes, com efeito, para mim?” (Zacarias 7.5). Em seguida, ele informou que, uma vez que tinham desenvolvido essa tradição, sem uma ordem específica de Deus, não era mais aceitável a Deus como um ato de culto religioso do que era o comer e o beber. “Não ouvistes as palavras que o SENHOR pregou pelo ministério dos profetas?”, concluiu o profeta.

Seria difícil pensar em uma lição mais claramente ensinada nas Escrituras do que esta: “aquilo que é elevado entre os homens é abominação diante de Deus”. E não devemos pensar que esta é apenas uma doutrina do Antigo Testamento. Nenhum princípio da Palavra de Deus é ensinado em apenas um testamento. Este princípio não é exceção. A tendência pecaminosa do homem que vimos no Antigo Testamento é evidente também no Novo Testamento. Nos dias dos apóstolos, e na Igreja Apostólica, vemos esta mesma tendência em homens pecadores, e nós também encontramos o mesmo princípio da revelação divina.

A igreja da Galácia é um caso interessante. É evidente, a partir do conteúdo da epístola de Paulo aos Gálatas, que aquela igreja que havia tido um início tão promissor, em pouco tempo havia se enveredado pelo caminho errado. Paulo disse que estava admirado pelo fato deles estarem tão distanciados da graça de Cristo. E, pelo menos, parte do problema era essa tendência má sob consideração. Os gálatas haviam decidido que a religião pura que haviam recebido dos apóstolos não era suficiente. Eles queriam algo melhor (embora não houvesse nada melhor). Então, eles começaram a adicionar certos dias santos e estações originados em sua própria concepção.

Não sabemos exatamente quais dias santos e estações do ano foram, mas, certamente, sabemos o que o inspirado apóstolo de Deus tinha a dizer sobre isso. Encontramos as palavras em Gálatas 4.9-11: “mas agora que conheceis a Deus ou, antes, sendo conhecidos por Deus, como estais voltando, outra vez, aos rudimentos fracos e pobres, aos quais, de novo, quereis ainda escravizar-vos? Guardais dias, e meses, e tempos, e anos. Receio de vós tenha eu trabalhado em vão para convosco”.

Observe-se, quão séria era esta questão aos olhos do apóstolo. O que é ser “escravizado” de novo, senão ser escravizado pela falsa religião? Como Paulo poderia dizer que receava ter trabalhado em vão para com eles, se não por uma religião na qual caíram que era nula e sem efeito diante de Deus? É justamente o caso de homens estimarem aquilo que é abominação aos olhos de Deus, e tudo porque eles estavam observando certos dias e épocas sem que isso fosse ordenado pelo Deus Todo-Poderoso. O pecado dos gálatas foi exatamente o mesmo de Caim, Nadabe e Abiú, dos cativos da Babilônia, e dos fariseus, que tornaram a Palavra de Deus em vão por causa de suas próprias tradições.

Nossas tradições
Uma coisa é condenar os pecados de outros homens, mas outra coisa é emendar nossos próprios. Os gálatas, provavelmente, não tiveram dificuldades em condenar os ímpios fariseus, mas não é tão certo que estavam dispostos a ouvir Paulo condenando a eles próprios. Paulo afirmou: “Tornei-me, porventura, vosso inimigo, por vos dizer a verdade?” (Gálatas 4.16). O autor do presente artigo fará a mesma pergunta. Suponha que eu diga algumas coisas que “machuquem” um pouco. Suponha que eu fale contra algo que é sagrado para você. Irei me tornar seu inimigo porque disse a verdade?

A verdade é que o Natal (a Sexta-Feira Santa, a Páscoa, Dia dos Pais, Dia das Mães, Dia das Crianças, e qualquer outro “dia santo” especial, com exceção do domingo) é uma abominação para Deus. Agora, preste atenção: não digo que tudo associado a esses dias é abominável. O que podemos dizer é que todo dia santo especial (ou época) é abominável a Deus.

Fonte pagã
Em primeiro lugar, isso é verdade por causa da sua fonte. Consideremos o Natal como um exemplo. É admitido pelos católicos romanos e pelos protestantes que o Natal não é revelado na Palavra de Deus. A Bíblia não nos dá a data do nascimento de Cristo. Nem sequer nos diz o mês exato ou mesmo a estação. Também é geralmente admitido que não há nenhum vestígio da observância do Natal na Igreja Apostólica e Pós-Apostólica.

Somente no século III que a celebração do Natal começou a aparecer nos círculos cristãos, e, ainda assim, não houve uniformidade. Várias datas foram estabelecidas para o “dia santo”, inclusive janeiro, março, abril e maio. Até os dias de hoje a Igreja Ortodoxa Grega celebra em 6 de janeiro, em vez de 25 de dezembro. Quando, sob a autoridade crescente do bispo de Roma, 25 de dezembro foi adotada no ocidente, isso se deu, em grande parte, como uma tentativa de enfrentar a concorrência da celebração pagã chamada Saturnália. Era um momento de celebração, diversão e distribuição de presentes. Era uma celebração pagã em honra ao sol. Acreditava-se que o sol era um deus, e que neste momento ele começava a conquistar a escuridão do inverno. Gradualmente, o “dia santo” cristão e o feriado pagão se uniram em um só. E a “tradição do Natal” foi firmemente entrincheirada. Em tudo isto, há sim uma concordância geral.

Mas houve um dia no qual protestantes e católicos discordaram fortemente, não sobre a origem do Natal (e de outros dias santos), mas se a fonte era válida ou não. Então, como agora, a Igreja Católica defendeu plenamente as tradições feitas pelo home, porque, citando suas próprias palavras:“A Igreja Católica recebeu de Jesus Cristo o poder de fazer leis para os seus membros”(Catecismo de Baltimore). Entre essas leis, encontramos a designação oficial de tais “dias santos”, como o Natal e a Páscoa, e tais dias são sustentados pelo católico romano como sendo dias santos designados pelo próprio Deus.

Repetimos, houve um dia quando os protestantes discordaram. Houve um dia em que os protestantes disseram: “Todo o conselho de Deus concernente a todas as coisas necessárias para a glória dele e para a salvação, fé e vida do homem, ou é expressamente declarado na Escritura ou pode ser lógica e claramente deduzido dela. À Escritura nada se acrescentará em tempo algum, nem por novas revelações do Espírito, nem por tradições dos homens”(Confissão de Fé de Westminster, I.6). E em relação a esta questão de dias santos, eles disseram que o povo de Deus deveria santificar “os tempos especificados, que Deus designou em sua Palavra, expressamente um dia inteiro em cada sete” (Catecismo Maior, Pergunta 116). Ou seja, somente o dia de domingo foi considerado por eles como “santo”.

Suponha que você imaginasse ter a noção de que seria bom observar a data de 3 de fevereiro como um dia santo especial em comemoração á visita de Jesus ao Templo com a idade de doze anos. Que direito você tem de fazer essa designação? Que justificativas os outros receberiam para aceitar a sua ideia? E se a sua igreja dissesse: “Não! Não ouviremos tal disparate! Jesus Cristo é o Rei e o Cabeça da Igreja, e só Ele tem o direito de designar um dia santo, e Ele nos ordenou santificar apenas o domingo”? É claro que você diria que essa igreja estava simplesmente se mantendo pura. Mas a verdade é que o Natal (e a Páscoa e etc.) não tem um mandato de Cristo mais do que um dia escolhido por você teria. A única diferença é que a tradição através do processo do tempo, faz com que algo gerado puramente pelo homem seja grandemente estimado pelos homens. Mas ainda é uma abominação diante de Deus por causa da sua origem.

Distorcendo do Evangelho
A segunda razão pela qual tais dias santos são abominações para Deus é que é necessário sancionar o erro, a fim de dar-lhe a nossa estima. Vamos citar novamente o Natal a título de exemplo. Se houvesse qualquer possibilidade de a data do nascimento de Cristo ser preservada pela tradição, então, 6 de janeiro mereceria a preferência, em vez de 25 de dezembro. A Igreja Grega é uma instituição mais antiga que a Latina. E se a tradição tem qualquer validade, que ela dependa da sua antiguidade.

Mesmo se apelássemos ao falso critério da tradição, estaríamos condenados! No entanto, como a tradição é condenada pela Escritura, não podemos construir sobre ela, nem ser julgados por ela.

Muito mais importante é o fato de que a celebração do Natal (e outros dias santos humanamente concebidos) distorce o verdadeiro evangelho de Jesus Cristo. Pela observância religiosa de dias santos especiais, certos aspectos do evangelho recebem um destaque que não lhes é dado pelo ensino da Palavra de Deus em si. Natal e Páscoa são os dois “dias santos” que reivindicam uma enorme quantidade de atenção a cada ano. E, assim, o nascimento e a ressurreição de Cristo recebem uma medida de atenção que outros aspectos da verdade não recebem.

Esta ênfase não é encontrada nos escritos apostólicos. Pois em todas as epístolas do Novo Testamento, não podemos encontrar nenhuma referência explícita à chamada história do Natal. A ressurreição de Cristo sempre recebeu muita ênfase, mas também há muita ênfase nos escritos apostólicos sobre eventos que ocorreram em outros dias que os homens não comemoram como dias especiais. Esta é uma distorção da verdade do evangelho, e uma distorção da verdade não é o mesmo que a própria verdade. Desse modo, a aprovação de tais dias santos aprova o que deve ser chamado de erro.

Confunde os verdadeiros dias santos
Finalmente, o Natal (e outros dias sagrados) é uma abominação pelo fato de que, ele afasta o pensamento do cristão daquilo que Deus exige, e o aproxima daquilo que Ele não ordena. A Palavra de Deus não diz nada sobre guardar este dia chamado Natal. Mas ela diz que o Deus Todo-Poderoso nos ordenou guardar e santificar o sábado. Mais do que isso, Deus ordena que usemos os outros seis dias para as obras que pertencem ao homem. E isso, por si só, proíbe os homens de fazerem o que têm feito, designar dias santos. É um escândalo, quando os homens tomam o dia do Senhor e o transformam em dia do homem (como Dia dos Pais, Dia das Mães, Dia das Crianças e outros). Ninguém tem o direito de tomar o dia que tem o Nome do Senhor sobre ele e honra outra pessoa. Por outro lado, Deus deu seis dias de cada semana para o homem, e ninguém pode tomar justamente esses dias do homem sob o pretexto de torná-los dias santos de Deus.

Quando a autoridade humana diria, “este dia não te pertence mais, para suas obras e recreações, mas é um dia santo a Deus”, isso é tão abominável quanto dar o dia santo de Deus aos homens. O homem não tem poder para fazer santo um dos seis dias mais do que tem para tornar o dia do Senhor em um dia comum, ou mesmo especial em de alguma forma desenvolvida pelo homem.

Enfatizamos o fato de que dias santos como o Natal são uma abominação para Deus – não por causa de muitas coisas que são frequentemente condenadas (como presentes, e aumento nas vendas, e o sorriso caloroso e cumprimento amigável – por que essas coisas são condenadas?) mas precisamente por causa das coisas que geralmente são louvadas! É a pompa religiosa, a assim chamada tradição sagrada do Natal, que mesmo que os homens estimem grandemente, é abominação para Deus. E o mais trágico, é que os filhos da Reforma estão na vanguarda dos que estão tentando torná-lo um “dia santo”.

O resultado inevitável dessa tendência hoje é o que sempre foi. Sempre que os homens estimam demais a tradição, eles tornam a Palavra de Deus em vão. Não somente os Fariseus de outrora, mas também os que hoje invalidam a Palavra de Deus por causa da sua tradição. E, onde quer que a ênfase em tais dias santos, como Natal, Páscoa, etc., tem aumentado, tem havido um declínio correspondente na observância do dia do Senhor. (E, inversamente, onde tem havido uma séria tentativa de guardar o dia do Senhor, tem havido uma rejeição desses dias santos, que não têm autorização das Escrituras). E, assim, dizemos novamente, que tais dias santos são uma abominação porque Deus disse: “Tudo o que eu te ordeno observarás; nada lhe acrescentarás, nem diminuirás” (Deuteronômio 12.32). Não, nem mesmo por meio de antigas tradições e costumes sagrados. Pois o fato é que todo o culto religioso, reverência, sentimento e consciência que vem de qualquer outra fonte que não da Palavra de Deus é apenas isso – abominação aos Seus olhos.

Permitam-me encerrar com as palavras: “Sou teu inimigo porque te disse a verdade? E se eu não tivesse dito a você a verdade, testemunharia o erro. Mas, se eu disse a verdade, então venha, vamos raciocinar juntos. A religião de Deus não é suficientemente boa para você? Não são os domingos que o Senhor afirmou pertencerem a Ele, suficientes para sua alma? Você não está disposto a se contentar com aquilo que o Mestre te deu? É tempo de nós, protestantes, que condenamos a Igreja de Roma por suas superstições, desistirmos de algumas superstições nossas.

FONTE: http://www.nethtc.net/~giwopc/holy_days.html

TRADUÇÃO: Alan Rennê Alexandrino Lima

Este texto foi retirado do site Cristão Reformado