terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

John Frame - Quando Paulo poderia afirmar a "escolha humana", ele a nega


É impressionante que em Romanos 9, em que o problema do mal é explicitamente levantado, Paulo não dá provimento à defesa do livre-arbítrio; antes, contradiz as presunções dessa defesa. Ele levanta a questão da razão por que tão poucos judeus haviam crido em Cristo. Essa era uma matéria de agonia para ele (vs. 2-5), pois era o seu povo e, historicamente, o povo de Deus, herdeiros da promessa. Deveríamos observar que essa mesma questão pressupõe uma forte visão da soberania de Deus. Pois por que o problema do mal seria levantado, ali, a menos que Paulo estivesse assumindo que a fé é dom de Deus? O problema é que Deus tomou Israel como seu povo e, ainda assim, Israel desprezou o dom da fé.

A resposta de Paulo é que, desde o tempo de Abraão, tem havido uma divisão no meio do “povo de Deus”, entre aqueles que realmente pertencem a Deus por meio da fé e aqueles que apenas fisicamente descendem de Abraão. O que é que causa a divisão? Ali, Paulo poderia facilmente ter dito: “escolha humana”. Mas ele não diz. Antes, traça a divisão ao “... propósito de Deus, quanto à eleição” (v. 11), acrescentando “não por obras, mas por aquele que chama” (v. 12). De fato, Deus predisse a sina de Esaú e Jacó antes que fossem nascidos, indicando que teria pré-ordenado seus destinos (vs. 12-13).

No versículo 14, o problema do mal vem a foro: Deus teria sido injusto ao ordenar o mal para Esaú, antes que ele tivesse nascido? Não, diz Paulo. Por quê? A defesa do livre-arbítrio diria que Deus previu as escolhas autônomas de Esaú e, portanto, determinou sua punição. Mas Paulo traça o mal ao livre-arbítrio de Deus: “Terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia e compadecer-me-ei de quem me aprouver ter compaixão” (v. 15, citando Ex 33.19). então, ele reitera: “Assim, pois, não depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia” (v. 16). Depois, segue o versículo 17, que declara o propósito de Deus para trazer o mau a faraó a fim de apregoar o nome do Senhor por toda a terra. “Logo, tem ele misericórdia de quem quer e também endurece a quem lhe apraz” (v. 18).


Fonte: “Apologética para a glória de Deus” da Editora Cultura Cristã.